Penso, logo cago - Glauco Mattoso

Penso, logo cago - Glauco Mattoso

#5 PENSO, LOGO CAGO [1977]
Glauco Mattoso

Eu não nasci,
pois não me lembro de isso ter acontecido.
Não morri,
pois também não me lembro que isso tenha acontecido.
E, se não nasci nem morri, das duas uma:
ou sou Deus ou não existo.
Ora, como nem tudo que eu quero acontece
e nem tudo que acontece eu quero,
não sou Deus.
Portanto, não existo.
Logo, não penso.
Então este raciocínio é falso,
e nesse caso eu não passo de um mero amnésico.
De qualquer maneira, nada tem importância:
se perco a memória,
tanto faz que tudo seja ou não verdade.
Basta dar a descarga
e passar pro papel.


NOTA: Foi publicado originalmente no "Jornal Dobrabil" e seu discurso sofismado joga com o duplo sentido (filosófico e fecal) da escatologia. O poema está incluído na coletânea "Memórias de um pueteiro" e na antologia "Poesia digesta: 1974-2004".


Site do autor:
http://glaucomattoso.sites.uol.com.br